Procuro pedaços de pequenas palavras soltas e dilatadas
Para tentar explanar em linhas tortas
O que sinto quando começo a escrever.
Escrevo para curar minha cruel enfermidade
Escrevo, sobretudo para acalantar a auto-tempestade.
Escrevo para variar o meu interior, que se cansa de ser ele mesmo
E descansa em algum leito análogo ao do funesto.
Proferem que é fácil escrever. Calúnia!
Fácil é jogar palavras, deixá-las soltas, avulsas, como se não tivessem dona;
Fácil é rimar céu com véu e ainda acrescentar um mel.
Escrever é alma. Cerne. Íntimo. Espírito. Imo. Interior. Particular. O corpo a vida detém.
Escrever é sentir lá no fundo... Bem no fundinho o que é verdadeiramente sentir,
O que é mister para se saber o que o peito sempre tenta descrever.
Escrevo com o coração, com o brilho dos olhos, que ofuscam cada palavra,
Cada gesto e cada suspiro de um amontoado de prazeres que sinto quando estou aqui.
Escrevo porquanto é a minha condição humana.
Escrevo sem saber o que me pode custar.
Sinto o peso de cada letra, de cada entrelinha e cada sentimento escrito.
Como estou sentindo agora. Minha garganta é testemunha.
Escrever nada mais é do que comprimir a larva contra o casulo;
É retirar do chão a dor que enfeita o peito e suspirar pelo momento preciso e sadio.
E escrevo, sem pedir nada em troca. Além do que eu mesma posso me dar.
Escrevo a fim de estar exatamente revigorada, mesmo que seja jamais.
Inda assim persistirei escrevendo.


